A magia da água

“Perhaps the most extreme example of homeopathic rip-off is a remedy called oscillococcinum. ”

“In fact the packaging boldly states that each gram of medication contains 0.85 grams of sucrose and 0.15 grams of lactose, which are both forms of sugar. In other words, oscillococcinum is a self-declared 100 per cent sugar pill.”

In Trick or Treatment?: Alternative medicine on trial, Simon Singh and Edzard Ernst, Pag. 176

Ao contrário do que muitas vezes se afirma, o progresso tecnológico e o conhecimento científico que hoje possuímos sobre o ser humano na sua vertente biológica e cognitiva, sobre a natureza e sobre o universo, não significa necessariamente que estamos hoje, de uma forma global, menos susceptíveis a erros cognitivos, mais protegidos de superstição ou crenças sem fundamento.

Seria até interessante, se ainda não foi feito, analisar e inventariar as crendices que eram frequentes no mundo pré-Revolução Industrial e compará-las com aquelas que hoje estão em voga.

São tantas as antigas crenças que ainda hoje perduram – a astrologia, a cartomancia – como aquelas que desapareceram num passado remoto, para serem agora ressuscitadas pelo Ocidente, maravilhado com a sabedoria dos antigos e desapontado pela “ciência que não consegue explicar tudo”.

Mas se os movimentos New Age tendem a ser facilmente ignorados ou menosprezados como uma patetice sem importância ou inofensiva, existe outro tipo de crenças sem fundamento que ganha cada vez mais terreno e parece assumir uma importância assustadora em todo o mundo. Falo das “medicinas” alternativas. Aquelas que não merecem o título medicina (sem aspas) porque os seus métodos ou práticas não tem eficácia comprovada.

Isto inclui todo o tipo de terapias, algumas verdadeiramente perigosas, outras que embora sejam inofensivas, por não causarem efeitos, podem ser perigosas se uma pessoa optar por recorrer ao seu uso de forma exclusiva.

As “medicinas” e “terapias” alternativas tornam-se bastante atractivas porque são exóticas, porque são milenares, porque são naturais, porque solucionam problemas que a Medicina (que os proponentes das “medicinas” alternativas gostam de apelidar de ocidental ou tradicional) não consegue resolver.

A Homeopatia, dentro do conjunto destas “medicinas” alternativas, é um dos melhores exemplos de persistência de crenças sem fundamento na actualidade.

É bem provável que toda a gente já tenha ouvido falar de Homeopatia e é bem provável que muitos saibam exactamente do que se trata. A homeopatia não tem nada de exótico se pensarmos que esta prática nasceu na Europa, mais precisamente na Alemanha. Não é milenar, foi criada no final do século XVIII. Quanto ao ser natural, bem, depende do valor que se atribui ao natural. Penso que quando a maioria da população fala em produtos naturais não se refere a testículos de boi, saliva de cães com raiva ou a veneno de cobra.

A homeopatia partiu do princípio em que se assume que se uma determinada substância causa uma doença num sujeito saudável, então a mesma substância deverá curar o sujeito doente. Para além disto, a substância terá de ser altamente diluída, diluída ao ponto de não restar qualquer vestígio da substância activa. A solução proposta para explicar o efeito de um produto homeopático reside na proposta avançada por Jacques Benveniste (1935– 2004): a água tem memória.

A Homeopatia está um pouco por todo o lado, é uma verdadeira indústria e tem aderentes fervorosos que, apesar de existirem provas em contrário, defendem a sua eficácia, porque se sentem bem, porque a Medicina dita ocidental tem efeitos nefastos na saúde das pessoas. Como se bastasse afirmar que a democracia não é perfeita para convencer o mundo que uma ditadura seria melhor.

Para uma população distraída, conversas sobre testes clínicos, eficácia de medicamentos e discussões internacionais, passam ao lado de muita gente.  E na verdade se formos perguntar à senhora preocupada com os efeitos secundários de medicamentos, é bem provável que sua reacção seja favorável  quando na farmácia lhe oferecerem um comprimido que não tem efeitos secundários (penso que não lhe é dito que não tem efeitos primários), que é natural e que “muita gente se dá bem com a homeopatia”.

2010 não foi um bom ano para a Homeopatia. Começou com um grupo de cépticos britânicos a encenar uma “overdose” de produtos homeopáticos para chamar a atenção do público para a inexistência de agentes activos nos mesmos; também em Inglaterra tem havido muita pressão para o Sistema Nacional de Saúde britânico (NHS) deixar de comparticipar medicamentos homeopáticos, porque repetidos testes clínicos demonstram que homeopatia não é melhor que um placebo. O mesmo se estende à Alemanha, terra natal da homeopatia, com um artigo de capa da conceituada revista Der Spiegel, e que pode ser lido na  versão traduzida para inglês aqui.

Mais grave ainda foi a investigação feita pela BBC que expôs 10 clínicas e farmácias no Reino Unido a aconselharem  produtos homeopáticos como prevenção da Malária e outras doenças tropicais e a ignorarem conselhos básicos sobre picadas de insectos.

Para chamar a atenção da ineficácia da Homeopatia, no próximo dia 5 de Fevereiro, às 10:23, a Merseyside Skeptics Society vai promover uma campanha semelhante àquela que aconteceu no ano passado, através de uma “overdose” encenada de produtos homeopáticos. A campanha deste ano, com o mote “10:23 Homeopathy: there’s nothing in it” pretende tornar-se um evento global e vai reunir 10 países em 23 localizações.

Publicado em Simultâneo no Portal Ateu a 12 de Janeiro de 2011

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